11 de fev de 2012

Quando você chegar e aprender a ler


Escrevo para você, para você saber das coisas da minha terra natal,  pois sua realidade será completamente diferente da minha, meu empenho será tanto, para você amar a natureza, saber das lendas, das comidas típicas, de como é nascer num lugar altamente tecnológico, cheio de fabricas, avançadíssimo em um ponto, e atrasadíssimo e outros aspectos, que posso até lhe tornar, dividido que nem eu.

Quando eu era criança, uma vez ao ano, papai reunia a família para viajar.Naquela época, eu só me preocupava, com aquela cartela colorida de bolinhas de chiclete que eu pegava na loja da mamãe.E se minhas batatas pringles e a latinha de chiclete bumbble gum estava na maletinha para eu comer na viagem.
O meu diário também era inseparável.Até hoje tenho todos la no porão da casa da vovó paterna.Deve ter muitos segredos de muita gente.A vovó paterna levava uma caixa de isopor para suas irmãs que moravam no rio, e quando ela voltava, a caixa continuava cheia, com varias coisas, que ela dizia que não tinha aqui, eu nem posso entrar em muitos detalhes, se não eu apanho em praça pública, as pessoas aqui odeiam que fale qualquer coisa da cidade, segundo o papai aqui e o melhor lugar do mundo para se viver.Sendo que aqui e o melhor lugar, para ganhar dinheiro e morrer cedo.E segundo a mamãe, aqui foi onde eles conquistaram tudo que tem até hoje.
E essa história de isopor eu nunca tinha entendido direito, mas hoje querida vovó, eu entendo perfeitamente aqui é uma fartura, farta tanta coisa, rsrsrs.
Que pena que a senhora não está aqui, para eu lhe dizer, mas tenho certeza que pode me ouvir.
Outra coisa que eu lembro, que eu comia dois Mc lanche feliz por ano, aqui não tinha McDonald's, hoje tem apenas um.
E aos Sábados, papai saia da ótica, quando chegava em casa, nós quatro, eu, mamãe e meus dois irmãos, estávamos prontos para ir acampar e pescar, íamos até a marina, pegava o barco, chamado Zizi, e saiamos pelo rio, em busca de praia, mas isso só acontecia na época de várzea, (filho várzea é quando o rio seca, e forma as praias) ancorávamos o barco, papai armava as barracas, as vezes levávamos um jet sky, que só podia ir um por vez, com o marinheiro do barco, no rio de coca-cola, pois a mamãe morria de medo de perder um de nós três, pois já tinha perdido uma prima, lá no interior de onde vem sua família, ela sempre entrava na  água com nós três, no domingo tinha peixe assado, e o pôr do sol, era a coisa mais linda que eu já vi na minha vida toda, a amazônia  é fascinante.
Naquela época, eu passava a semana com minha babá, que me contava muitas lendas amazônicas, como a do guaraná, a do boto rosa, eu só via a mamãe e o papai, no almoço, na janta, e depois da janta, estudávamos nós quatro na mesa, eu, meus dois irmãos, e a mamãe, ás vezes a minha madrinha, minha vó materna me buscava para passar uns dias das férias em sua casa, eu amava quando isso acontecia, pois era a chance que eu tinha de andar de ônibus.Mamãe não gostava por que achava que eu sempre voltava mimada, então eu não durava muito tempo lá.
Mas na casa da minha vó era aonde eu caia me machucava, aonde eu brincava na rua, ia com os meninos entrar na mata para pegar folha de coqueiro, para enfeitar a festa junina da rua, fazíamos corrida de bicicleta, tudo o que minha mãe nem imaginava que eu fazia, pois naquela época morávamos numa avenida, que só tinha condomínio, e  as casas era muito longe uma das outras, as nossas brincadeiras eram na piscina de casa, e no jardim de casa, o que para mim era um saco.E tudo lá em casa tinha horário, na vovó era uma regra só: voltem antes das cinco, para tomar banho e para lanchar.
Depois quando eu completei uns 6 anos, eu já sabia para aonde fujir, uma vez o motorista esqueceu de me buscar na escola, eu sai da escola com um amigo da minha tia, naquela época a minha tia fazia o ginásio, na mesma escola que eu, eu disse, ao rapaz : pode pedir um táxi, e se responsabilizar ai na recepção por mim ?
Ele perguntou : Você sabe seu endereço ?
Eu disse: Sei. E dei o endereço da vovó.
Depois aos 8 anos, papai foi chamado na escola, pois eu estava revendendo canetas e lapiseiras, que a mamãe me dava da loja dela.Eu sempre achei que eu não precisava, nem da metade das coisas que eu tinha.
Eu nunca fui levada da breca, mas tinha minhas estratégias de ganhar dinheiro, aos 9 eu fiz um bolo de aniversário para a mamãe com o dinheiro do meu próprio trabalho, mas eu sempre me dava mal, ficava de castigo maior tempão, por conta dessas coisas.Aos 10,  fui no salão e fiz uma mecha loira no meu cabelo, igual da mulher da malhação.Era castigo atrás de castigo.
Uma vez por ano, eu doava metade das minhas roupas, e brinquedos e tudo que não usava mais.
No ano que lançou o cd, eu ganhei um som  micro system, a minha tia, trabalhava numa fabrica de cd s, e me perguntou qual cd eu queria, eu disse Adriana Calcanhoto Esquadros, e esse foi meu primeiro cd.
Eu cheguei a constatação que eu já nasci velha....
Mas, Deus disse, vai com a cara bem nova, que não aparente sua idade, para você não acelerar o processo das coisas.
Espero que a minha existência, lhe faça tão regional, tão baré, e menino da casa da vovó como eu fui, e escrevo para que você nunca renegue seu passado, e a história da família.Eu lhe prometo tudo, mas me prometa, que você sempre dará bom dia, boa tarde e boa noite para quem limpar sua mesa, ou o garçom que lhe servir.E quando você tiver um emprego muito chique, e possuir autoridade, nunca abuse dela, trate sempre as pessoas com tolerância, paciência, compaixão, você terá mais oportunidades do que muitas outras pessoas, mas isso não lhe difere em nada dos demais, não seja difícil com as pessoas, seja sempre pequeno, como um bebê de colo, essa e a verdadeira humildade, sem falsidade.
Não valorize as coisas do mundo, valorize as pessoas, os seus sentimentos, os momentos, esse é um alicerce, que solidificará sua vida.Um relacionamento baseado no amor, nunca acabará.Mas um relacionamento baseado nas coisas do mundo, acabará quando alguns desses itens lhe faltar.
Sei que você será muito diferente de mim, e terá metade da genética do seu pai, no qual ainda não conheci,  mas quando você aprender a ler, essa será sua primeira leitura, e quando você esquecer das minhas palavras, meu olhos te dirão só no olhar.







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